NOVIDADES
14/12/2009
O refúgio onde a arara-azul é feliz
Detalhe do charme das araras-azuis: a coloração amarela em volta dos olhos e no bico Meio ambiente
O refúgio onde a arara-azul é feliz
Em 20 anos, projeto triplicou a população da espécie na região do Mato Grosso do Sul, que hoje chega a aproximadamente 5 mil aves
Publicado em 13/12/2009 | Vinicius Boreki
Neiva Guedes desfaz a expressão sisuda, sorri e soca o ar de punho cerrado. A alusão à comemoração de Pelé não se deve a um gol, mas à confirmação do nascimento de mais uma saudável arara-azul. Os pássaros conquistaram Neiva em 1989, quando avistou uma árvore com cerca de 30 aves. Foi amor à primeira vista. Mal sabiam elas que essa aliada (com apoio de companheiros e empresas) conseguiria triplicar a população da espécie em 20 anos. De 1,5 mil, em 1989, estima-se que o número se aproxime de 5 mil hoje. E a atuação do Instituto Arara-Azul, do qual Neiva é coordenadora e idealizadora, comemora 20 anos em 2009, estendendo-se por cerca de 450 mil hectares do Pantanal sul-mato-grossense. Se os braços do projeto esbarram nas fronteiras estaduais, o legado avança a outros países com ocorrência da espécie, como Bolívia e Paraguai.
O reconhecimento chega após anos de teimosia, superando a falta de pesquisas e a dificuldade de logística. Há duas décadas, praticamente inexistiam informações sobre o comportamento e o modo de vida dos pássaros. Hoje, conhecem-se os modos de reprodução, as características típicas, e a evolução (do nascimento até o primeiro voo). Para rodar pelo Pantanal, Neiva precisava de veículo adequado às condições locais: alagada na cheia e acidentada na seca. Encontrou acolhida na Toyota, que cedeu de início um jipe Bandeirante. Atualmente, o projeto conta com três caminhonetes Hilux. O próximo passo da parceria será a construção de um Centro de Sustentabilidade, em Campo Grande.
Ampliar imagem
Ampliar imagem
Luciano Candisani
Ampliar imagem
Luciano Candisani
Ampliar imagem
Luciano Candisani
Ampliar imagem
Luciano Candisani
Ampliar imagem
Luciano Candisani
Ampliar imagem
Luciano Candisani
Ampliar imagem
Luciano Candisani
Ampliar imagem
Luciano Candisani
Ampliar imagem
Luciano Candisani
Ampliar imagem
Luciano Candisani
Ampliar imagem
Luciano Candisani
Ampliar imagem
Luciano Candisani
Ampliar imagem
Luciano Candisani
Ampliar imagem
Luciano Candisani
Ampliar imagem
Luciano Candisani
Ampliar imagem
Luciano Candisani
Ampliar imagem
O projeto, idealizado em 1989 por Neiva Guedes, deu origem ao instituto
Além de monitorar os ninhos naturais, o projeto instala abrigos artificiais. A “casa” é bem-aceita pelas araras-azuis e outras espécies de aves
As araras - vermelhas se aproveitam dos ninhos artificiais . Seu comportamento , porém , não é tão amistoso com o homem
Outro animal marcante do pantanal sul - mato - grossense , o jacaré
As araras - azuis são monogâmicas . Ou seja , passam sua vida ao lado de apenas um companheiro . Em caso de morte , os pássaros podem ou não formar novo casal
Ao contrário do que se imagina , as aves não se alimentam de restos de frutas . Dois frutos de palmeiras respondem pela sua dieta , o Acuri e a Bocaiuva . Na imagem , a Bocaiuva
Como o Manduvi ( árvore predileta para a construção de ninhos está desaparecendo ) , o projeto encontra formas para reaproveitar abrigos em mau estado , tapando - os com tábuas para diminuir o risco de predação dos ovos ou dos filhotes
As araras acompanhadas pelo projeto recebem anilhas e microchips . O equipamento não permite o acompanhamento via GPS , mas é possível saber se o pássaro foi monitorado
Também são medidos o tamanho das asas, do bico e da cauda
Aves solidárias , quando começam a gritar , ganham a companhia de outros pássaros . O barulho , em alguns momentos , é ensurdecedor
Idealizadora e coordenadora do projeto desde 1989 , o trabalho de Neiva Guedes se tornou Instituto Arara Azul em 2003
Idealizadora e coordenadora do projeto desde 1989 , o trabalho de Neiva Guedes se tornou Instituto Arara Azul em 2003
Os filhotes precisam resistir aos primeiros dias de vida , quando o frio , os pequenos insetos e o ataque de predadores são os principais perigos . A cada 100 ovos colocados , apenas 40 filhotes chegam a voar . Portanto , quem chega a essa fase já é vencedor na natureza
As araras - azuis efetivamente adotam os ninhos
Quando há ovos , elas permanecem próximas a fim de evitar a predação . Muitas vezes , porém , saem buscar alimentos juntas, o que favorece o ataque dos predadores
Os filhotes têm a data de nascimento anotada e serão acompanhados até o primeiro voo , que leva cerca de 12 meses para acontecer
Geralmente , os ninhos estão em áreas de vegetação mais fechada
A ave - símbolo do Pantanal , o Tuiuiú
O “brincar de Deus” foi essencial para afastar o perigo de extinção do pássaro (a ararinha-azul, cujo último exemplar na natureza foi visto em 2000, existe apenas em cativeiro). A razão para o risco estava na intensidade do tráfico de animais até a década de 80, sobretudo em razão de sua característica exibicionista. “Ela se adapta muito bem ao cativeiro”, explica Neiva. Ao contrário de outras espécies, a arara-azul não se assusta com a presença do homem, e sua personalidade solidária atrai outras aves quando começam a gritar, somando quatro ou cinco casais de pássaros simultaneamente em uma mesma árvore. Ao menos hoje, o tráfico de animais e a caça indígena são problemas menores.
A atuação do projeto, que virou instituto em 2003, consiste em monitorar ninhos naturais, instalar e acompanhar abrigos artificiais –pequenas “casas” de madeira construídas com material específico e adotadas pelas araras e outros animais –, marcar os pássaros nascidos, coletar material biológico e mapear ninhos desconhecidos. Esporadicamente, tratam de aves machucadas. Ao todo, 400 ninhos naturais e 220 artificiais foram observados e boa parte continua sob vigília. Araras-vermelhas, tucanos, gaviões e animais terrestres, como veados, antas, tamanduás-bandeiras e onças, encontram abrigo mais tranquilo no Pantanal graças ao projeto, pois seu foco chega à comunidade, incentivando a defesa da fauna e da flora.
Os bons resultados, contudo, não permitem intervalo no trabalho. A reprodução da arara-azul não é das mais intensas e, apesar de “apenas” 13% da área total do Pantanal ter sido modificada pela ação humana, a árvore predileta para os ninhos (o manduvi, cuja semente é espalhada pelos tucanos) desaparece a cada ano. Como os animais são fiéis aos abrigos (procuram sempre o mesmo local para se reproduzir) e aos companheiros (são monogâmicas), as casas artificiais conseguem enganar a natureza. É necessário, porém, preservar o vegetal. “As araras-azuis têm função de engenheira ambiental. Encontram buracos feitos por pica-paus, por exemplo, e o aumentam. Depois, outras espécies ocupam também. O mesmo ocorre nos ninhos artificiais”, esclarece Neiva.
Dificuldade natural
A cada 100 ovos postos por araras-azuis, apenas 60 eclodem. Os desafios desses sobreviventes não param por aí. Eles precisam resistir à predação de gaviões e tucanos e ao ataque de doenças e de pequenos insetos. Muitos são mortos quando os pais saem juntos em busca de alimentos. Apesar de a maior parte dos casais colocar dois ovos em média, geralmente apenas um filhote sobrevive e é criado pelos pais por aproximadamente nove meses. Ou seja, o comportamento natural dificulta o trabalho. Sua alimentação se baseia em apenas dois frutos de palmeiras: o acuri e a bocaiuva.
Artigos
A evolução do saber sobre os pássaros se conecta com o Instituto Arara-Azul. Desde 1989, o conhecimento se disseminou, gerando artigos e publicações em congressos nacionais e internacionais. No total, as araras-azuis foram tema de 77 apresentações em congressos e de 19 artigos. A base do projeto desde 1998, no Refúgio Ecológico Caiman, em Miranda, é constantemente procurada por biólogos e outros pesquisadores. “Sempre estamos ajudando em pesquisas e em imagens”, conta Carlos Cezar Corrêa, assistente de pesquisas. A pequena equipe é, atualmente, composta por outras quatro pessoas: as biólogas Ana Maria Faldine, Grace Ferreira, Juliana Rechetezo e Fernanda Fontoura.
* * * * *
Fonte: Gazeta do Povo - Segunda-feira, 14/12/2009
O jornalista viajou a convite da Fundação Toyota.
Voltar |